Estadão.com.br
‹ Ir para edição atual

Busca avançada





  • Edição 68
  • Edição 67
  • Edição 66
  • Edição 65
  • Edição 64
  • Edição 63
  • Edição 62
  • Edição 61
  • Edição 60
  • Edição 59
  • Edição 58
  • Edição 57
  • Edição 56
  • Edição 55
  • Edição 54
  • Edição 53
  • Edição 52
  • Edição 51
  • Edição 50
  • Edição 49
  • Edição 48
  • Edição 47
  • Edição 46
  • Edição 45
  • Edição 44
  • Edição 43
  • Edição 42
  • Edição 41
  • Edição 40
  • Edição 39
  • Edição 38
  • Edição 37
  • Edição 36
  • Edição 35
  • Edição 34
  • Edição 33
  • Edição 32
  • Edição 31
  • Edição 30
  • Edição 29
  • Edição 28
  • Edição 27
  • Edição 26
  • Edição 25
  • Edição 24
  • Edição 23
  • Edição 22
  • Edição 21
  • Edição 20
  • Edição 19
  • Edição 18
  • Edição 17
  • Edição 16
  • Edição 15
  • Edição 14
  • Edição 13
  • Edição 12
  • Edição 11
  • Edição 10
  • Edição 9
  • Edição 8
  • Edição 7
  • Edição 6
  • Edição 5
  • Edição 4
  • Edição 3
  • Edição 2
  • Edição 1


Compartilhar:

Poemas

por Marc Falkoff

Tamanho da letra:
Imprimir:

Nota do tradutor:

Estes poemas - extraídos de Poems from Guantánamo: the detainees speak (livro organizado por Marc Falkoff e publicado pela University of Iowa Press em 2007) - foram escritos por prisioneiros muçulmanos mantidos na base norte-americana de Guantánamo, Cuba. Muitas vezes sem dispor de lápis e papel, seus autores recorreram a estratagemas engenhosos: alguns dos poemas foram escritos com pasta de dente em copos de isopor, os quais circularam entre as celas. A divulgação desses textos foi possível graças ao esforço de um grupo de advogados, defensores dos direitos humanos, professores e estudantes de direito, decididos a romper o isolamento total imposto aos detentos. Em Guantánamo, os prisioneiros são impedidos de receber qualquer notícia do mundo exterior e submetidos a formas variadas de tortura - como se sabe, o governo Bush não vê motivo para respeitar as Convenções de Genebra, das quais os Estados Unidos são signatários. A tradução desses poemas para o inglês foi feita em condições estritamente controladas pelo Pentágono, que não liberou os originais. Além disso, muito do material foi vetado pelos censores militares norte-americanos, que temem que alguns dos poemas contenham mensagens codificadas dirigidas à al-Qaeda. Assim, o que apresentamos aqui são traduções para o português de versões inglesas de textos poéticos escritos em árabe, sujeitos a cortes feitos por censores. Dadas as circunstâncias, seria arriscado fazer juízos de valor, mas parece claro que o mérito literário desses poemas é bastante irregular: sabemos que alguns dos autores já eram escritores antes de serem detidos, enquanto outros foram levados a escrever poesia pela primeira vez na prisão, certamente para resistir à solidão e à sensação de impotência. Também está claro que várias dessas peças são fortemente marcadas por elementos da tradição árabe, inclusive o Corão: assim, no poema "Leões na jaula", a expressão "Caravana de Badr" faz referência a uma célebre batalha entre Maomé e seus inimigos, mencionada na sura 3 (versículos 123 a 125). Qualquer que seja a qualidade poética desses textos, o importante é que eles nos dão acesso, ainda que limitado, ao "buraco negro" de Guantánamo. O poeta Robert Pinsky resume bem o ponto de vista dos setores mais esclarecidos do público norte-americano: "Eles merecem, acima de tudo, não admiração, crença ou empatia - mas atenção. Para nós, é urgente que lhes demos atenção". O tradutor gostaria de agradecer a ajuda da profª Safa Jubran, da USP.

- Paulo Henriques Britto


Mesmo que aumente
Siddîq Turkistânî

Mesmo que aumente a dor da ferida,
Remédio haverá que a cure.

Mesmo que perdurem os dias de prisão,
Dia virá em que seremos livres. 


Poema da morte
Jum'ah Al-Dûssarî

Tomem meu sangue.
Tomem meu sudário e
Meus restos mortais.
Tirem fotografias de meu cadáver na cova, solitário.

Espalhem-nas pelo mundo,
Entre os juízes e
Pessoas de consciência,
Entre os homens de princípios e os justos.

E que eles arquem com o fardo culposo, perante o mundo,
Desta alma inocente.
Que arquem com o fardo, perante seus filhos e a História,
Desta alma desperdiçada, impoluta,
Desta alma que sofreu nas mãos dos "protetores da paz". 


Eles lutam pela paz
Châkir 'Abdurrahmân 'Âmir

Paz, eles dizem.
Paz de espírito?
Paz na terra?
Paz de que espécie?

Vejo-os falar, discutir, combater -
Que espécie de paz procuram?
Por que matam? O que estão planejando?

Serão palavras vazias? Por que discutem?
Será tão simples matar? É esse o seu plano?

Sim, é isso, claro!
Eles falam, discutem e matam -
Eles lutam pela paz.


Leões na jaula
'Ustâd Badruzzamân Badr

Somos os heróis deste tempo.
Somos a juventude orgulhosa.
Somos os leões hirsutos.

Vivemos nas histórias, agora.
Vivemos nas epopéias.
Vivemos no coração do público.

Somos o escudo diante do opressor.
Nossa coragem é como uma montanha.
O faraó de nosso tempo está intranqüilo graças a nós.

O Chefe do Palácio Branco,
Como outros chefes ímpios,
Não vê nossa paciência.

O torvelinho de nossas lágrimas
Célere aproxima-se dele.
Ninguém resiste ao poder dessa inundação.

No mais das vezes, nestas jaulas,
À meia-noite as estrelas
Trazem-nos boas-novas:

Haveremos de vencer,
E o mundo espera por nós,
A Caravana de Badr. 


Poesia extra - só no site da piauí:

Não me queixarei
'Abdulaziz

Não me queixarei a ninguém, nem esperarei graças de ninguém senão Deus, que Deus me guarde.

Ó Senhor, meu coração está atormentado.

Não me queixarei a ninguém senão a Ti, ainda que os mares se queixem de secura.

Meu espírito está livre nos céus, enquanto meu corpo está dominado por grilhões.

Louvado seja Deus, que me deu paciência em tempo de adversidade e gratidão em tempo de alegria.

Louvado seja Deus, que plantou um jardim e um pomar em meu peito, para que estejam sempre comigo.

Louvado seja Deus, que me deu fé e me fez muçulmano.

Louvado seja Deus, Senhor do mundo.

Visite a página da revista piauí no Orkut