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Penhascos e Gralha

O encontro de seu Candonga com Conde Draklo, Múmia roxa, Sombra Grinalda e tocheiro Libório

por Zuca Sardan

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PENHASCOS

As freirinhas, mesmerizadas pelos sopros do sacão que se exalavam no fi acre, foram aspiradas pela janela. E agora... O fiacre arranca!... Se destampa do convento a tod'abrida... e segue pela noite terrível entre relâmpagos, raios e trovões, pelos penhascos escarpados rumo à tenebrosa torre em brumas envolta... Passemos a objetiva pro interior do fiacre. Apoiado à janela, de fraque trajado, contemplando melancólico os contornos confusos dos vultos que se agitam no saco de seda preta jogado diante do banco, o Conde Draklo conversa com a sinistra Sombra Grinalda.

GRINALDA, fundo suspiro: Ai!... Conde Draklo!... Sinto um pouco de... melancolia...
DRAKLO ajeita o monóculo: Excelente!... A melancolia aumenta o prazer, Grinalda.
GRINALDA gira os olhos: Ai!... Tomara que sim... Dúvidas cruéis me sobressaltam.
VOZES, chorosas, saindo do sacão: Soltai-nos... Piedade... Abre-se a portinhola do teto, aparece a carantonha do postilhão:
POSTILHÃO, alvoroçado: Já se vislumbra a Torre, Excelência.
DRAKLO estala os dedos: Apressa, pois, o galope, rapaz... Plac-Plac-Plac!...
GRINALDA, sôfrega: Podes avistar a Torre nesta noite tenebrosa, Juvenal?...
POSTILHÃO, risonho: Iluminada pelos relâmpagos, Dona Grinalda.
VOZES, chorosas: Piedade... Soltai-nos... Soltai-nos...
POSTILHÃO, comovido: Excelência... poderia-vos exortar a uma ação piedosa?... Concederíeis graça, por mim, vosso fi el postilhão... a uma pobre alma inocente?...
DRAKLO, magnânimo: Dize lá, Juvenal!!... Qual é a graça?...
POSTILHÃO, furtiva lágrima: Excelência!... Concedei-me... uma freirinha!...
DRAKLO, severo: Nem sequer a Madre Superiora!!!... Tenho responsabilidades junto à Santa Sé. Mas ganharás bela gorjeta e... umas garrafas de vinho. A portinhola do teto fecha-se com brutal estrondo: POOOONNNGGGGG!!!!!
GRINALDA, chocada, à meia-voz: A audácia desse vil postilhão!...
DRAKLO, ressentido, à meia-voz: Um biltre sem-vergonha... um lúbrico bode, ignaro e bodoso que não sabe o seu lugar... um grosseiro e brutal agitador sem escrúpulos...
GRINALDA: A implacável sanha social!... Estamos à beira do abismo, Conde Draklo...
VOZES, chorosas: Ai!... Piedade!... Libertai-nos... pela Santa-Cruz!... Uh-ru-ruuu...
GRINALDA, comovida: Ai!... Conde Draklo!... As pobres freirinhas...
DRAKLO, irritado: Ora, Grinalda... Não me vás tu também começar a choramingar... Logo agora que temperei por fim a própria vontade na forja fumegante do Desejo...
VOZES, chorosas: Piedade!... Piedade!... Uuuuh-ru-ru-ruruuuuuuuu...
GRINALDA, cavo suspiro: Ai!... Seria tão bom se pudesse haver prazer sem pecado... Gozar... Gozar... Gozar... sem remorsos!... Leve rubor perpassa seu semblante...
DRAKLO, abafando com o dorso da mão o bocejo: Ora, minha boa Grinalda, se houvesse prazer sem pecado... e o pertinaz remorso... Qual seria então a graça?... RAKATRAAAAAK!!!... Tremendo raio fulmina o postilhão, que despenca carbonizado.
GRINALDA se benze: O Castigo Divino se manifestou... e fritou o postilhão apóstata.
DRAKLO, estóico: Sobe à boléia, Grinalda, conduz o fi acre... Sigamos nosso caminho.
GRINALDA, hesitante: Rezemos antes pela condenada alma do pródigo defunto, Conde Draklo. As freirinhas, com suas vozes celestiais, em coro, poderiam nos ajudar a...
DRAKLO, bocejão: ... a... gozar?... Sim, se usarmos um bom chicotinho...
GRINALDA, digna: ... nos ajudar a... rezar.
DRAKLO: Excelente idéia, Grinalda!... Ai!... Que volúpia... 



GRALHA

No austero gabinete de Seu Candonga, diretor do Museu do Macaco, com a fiel Gralha ao ombro, ao lado de uma jovem Múmia envolta em faixas roxas. Seu Candonga recebe a visita do Conde Draklo, de manto e cartola, e de sua misteriosa Sombra Grinalda, de leque e mantilha. Entra o tocheiro Libório, de turbante, com uma bandeja marajoara.

MÚMIA borbulha: E os pastéis, Libório?... Pro Conde Draklo e sua Sombra?
GRALHA gargareja: Grã-Gra-Graaaaaa!... Pastéis a granel... o tocheiro comeu.
LIBÓRIO, zen: A bandeja está vazia de pastéis. Mas... cheia de vazio.
CANDONGA, enérgico: Pois então, Libório, ação!... Saca fora da bandeja o vazio.
LIBÓRIO, sofismático: Não se pode tirar o vazio da bandeja, Seu Candonga. E se a tornarmos a encher de pastéis... o vazio desaparece.
CANDONGA, dialético: O vazio, Libório, tem de estar dentro dos pastéis.
LIBÓRIO, pragmático: Avisarei a Dona Noélia. Sai.
CANDONGA: Dos pastéis, nem pó!... O Vazio, Conde Draklo, é a Mãe de todas as coisas. Tudo surge do Vazio e no Vazio torna a sumir: da mosca à Via Láctea!...
DRAKLO: Pra vós, Seu Candonga, que tendes uma visão beatífica do Universo, o Vazio faz maravilhas. E pra vossa Sombra, também, o Vazio se desdobra em faixas de roxas gentilezas. Mas pra minha Sombra Grinalda e pra mim... a tragédia é total.
CANDONGA: A Dama não é minha sombra, senão... a própria Múmia Real Aroxis.
GRALHA, matreira: Grã-Gra-Graaaaa!... Rapa-Troca... Roca-Trapa...
GRINALDA, assombrada: Esfingéticas palavras!... Insólito oráculo!...
DRAKLO, displicente: Trata-se de uma mera gralha, Grinalda.
MÚMIA, burbureja: Pitagórica Gralha Alhargis!... que nos traz recônditos oráculos.
DRAKLO: Gralhas não são sibilas, Dona Aroxis... nem sibilas são gralhas.
GRALHA: Gróóóóó... Dos enigmas das Gralhas... jamais, Mortais... saberais!...
CANDONGA, didático, pra Gralha: Jamais... Mortais... SABEREIS!
GRALHA, poética: Saberais!!! Saberais!!! Mortais, das Gralhas nunca mais...
DRAKLO, sotto voce: Sigamos adiante, Grinalda!... assaz enigmas... Deixemos Seu Candonga polemizar ad infinitum com sua gralha irredenta.
GRINALDA, siderada: Mas, Conde Draklo!, esse sacro pássaro... sabe falar!...
DRAKLO, bocejão: É o que parece. Partamos, pois, Grinalda... As gralhas são inexoráveis em sua feroz teimosia... Olhando em volta. A bem dizer, já partimos...
GRINALDA: Eis que estamos em plena avenida... Mudamos de cena sem nenhum aviso!... Parece passe de mágica do Lotrak, no Circo Spartaco!... Só falta aparecer...

Surge Haroldo, o jornaleiro perna-de-pau, com gazetas e pasquins forrando o sovaco.
HAROLDO, estentóreo: Olha a Gazetta Preta!! Nosso Nanico!! O Juízo Finaaaaal!!!
GRINALDA: Já estourou o Juízo Final?? Onde?? Em Bagdá?? Na Palestina??
HAROLDO: Juízo Final é um vespertino sensacional. Passa-lhes o jornal e se afasta.
GRINALDA, lendo o pasquim: Está tudo aqui, Conde Draklo!... O Enigma da Gralha...
DRAKLO: O Enigma da Gralha Jamais Sabereis de Nossa Visita Agora ao Museu??
GRINALDA: A imprensa hoje em dia, Conde Draklo, é muito rápida... e indiscreta.

Espero que não digam nenhuma maldade... baixa os olhitos... sobre nós dois.
DRAKLO: Ora, Grinalda!... sotto voce... O caso do Seu Candonga com a Múmia Aroxis... é bem mais escabroso. Ô-Rô-Rô-Rôôôôôô... olha pro alto e vê... o Condor!...

Entra o Condor, solta bostejada colossal pra cima do Haroldo, que alça um jornal...
JORNAL, s'abre, presto: ZZZZZZUUUUUUUUUFFFFFFFFFTTTTTT!!!!
BOSTA, colossal, explode no jornal: PLLAAAAAAAAAFFFFFFFTTTTT!!!!
HAROLDO, cantábile: Verde Bosta del Condor!... o Juízo Final me salvou.

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