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Nome, RG, CPF e apelido, faz favor
A cidade mineira na qual os apelidos foram parar na lista telefônica
por Letícia Rocha
Adarlan das Aluminas (Adarlan R. Fonseca), Adélia do Nacola (Adélia M. F. Castro), Adilson Advogado (Adilson G. Moreira) e assim por diante, de pai para filha, de marido para mulher, de amigo para compadre, de gerente para cliente.
Outubro de 1999. A publicitária Érica Zanetti acomoda-se na minúscula mesa de compensado do Centro dos Diretores Lojistas de Cláudio, cidade mineira de 27 mil habitantes (contando a área rural), cravada no meio de dezenas de morros, a 130 quilômetros ao sul de Belo Horizonte. Separa régua, canetas - azul e vermelha -, uma lista telefônica da Telemar e alguns papéis. Encara o velho telefone preto e começa. Entra em contato com a primeira pessoa da lista. Dois mil e quinhentos telefonemas depois, ela terá em mãos o material para confeccionar um livreto de grande utilidade a todo claudiense: a Listapel, rebatizada em 2006 de Apelista. É uma lista telefônica organizada por apelidos. Custa 5 reais nas bancas e, depois de um ano, o preço cai para 1 real.
Piruá Véio (Alvimar M. Santos). Piruá Filho (Agnaldo M. Santos). Déiz Conto (Sinfrônio S. Martins). Em Cláudio, a informalidade tem força de lei. As pessoas se cumprimentam mesmo sem se conhecer. Apresentar-se pelo nome é coisa rara. Se der o sobrenome, não regula bem. Sistemático propriamente é o apelido. Érica Zanetti, por exemplo, de 41 anos, claudiense da gema, é uma absoluta desconhecida. Já Érica do Claré da Diti, todo mundo sabe quem é. Seus conterrâneos reconheçam a importância da epopéia cadastral a que ela se lançou. "Mesmo no comércio e nos bancos, o cadastro é feito por nome, endereço, CPF, RG e apelido", explica ela, com a credibilidade enfatizada pelo seu forte sotaque mineiro.
A idéia da Apelista nasceu na mesa da cozinha de Zanetti. Uma noite, ela conversava com o então marido, Fábio Diniz, e o irmão, Heitor Oliveira, o Tucano, quando o assunto desviou para essa mania de pôr apelido. Foi surgiu a questão premente: e se, por hipótese, alguém precisasse ligar para o Groselha? Alguém ali sabia o nome do Groselha? Ninguém sabia. Para todos os efeitos, Marcos A. R. de Carvalho era um nada. Groselha, este sim existia; Groselha era o amigo. O trabalho de pesquisa durou cerca de quatro meses. Das 8 e meia da manhã às 9 da noite, Zanetti foi discando, um por um, todos os números da lista telefônica. "E imagina, era daquele telefone antigo, de disco."
Lançada em abril de 2000, a primeira edição da lista contava com 975 apelidos. A quinta e mais recente, publicada em 2006, traz 2500 - cerca de 80% das linhas telefônicas registradas em Cláudio. Lex Lutor (Nilton C. M. Costa) e Fusquinha (Wilson Teixeira) já podem ser achados com facilidade. "Difícil é encontrar quem não tenha apelido", diz Zanetti. Nada passa despercebido aos olhos do claudiense. Um pequeno deslize, um maneirismo qualquer, uma característica mais ressaltada na fisionomia e nasce um apelido. Supõe-se, por exemplo, que Dez Pras Duas (Hélder M. Jorge) caminhe a passos de bailarina, os pés viradas para fora. Cremildes Q. Coelho deve ser loirinha, ou algum dia pretendeu ser - donde, Pakita. Já Hélio L. Cruz não deve ser nenhuma alma da festa. Seu apelido é Gardenal.
Há também os apelidos por consangüinidade. Anos e anos atrás, um amigo de Vicentino Pereira o chamou de Goiaba. Fazia todo o sentido, tanto que não demorou muito para que o epíteto pegasse em seus onze irmãos, como nome de família. "Eu ainda era menina", conta Ana Pereira Januário, ou Ana Goiaba; faz tanto tempo, que ela teve de recorrer a outro irmão, Vicente Goiaba, para lembrar a origem do apelido: "Foi por causa da gengiva vermelha", ele lhe explicou.
O histórico de alguns apelidos foi pesquisado por Noeme do Zé Costela (Noeme Vieira de Moura, para os forasteiros), assessora de cultura e turismo da prefeitura de Cláudio. Nos 143 verbetes do pequeno dicionário (publicado como apêndice em certas edições da Apelista), há episódios biográficos como o de Moiado. Quando criança, Moiado caiu num poço. As irmãs saíram em busca de socorro e, ao voltar, já o encontraram a salvo. Aliviadas, perguntaram: "Como é que você saiu de lá, menino?". Tirando água do ouvido, ele respondeu: "Moiado".
A Apelista se tornou popular. Há os que não gostam de como são chamados e por isso não autorizam a publicação. Há também os que são excluídos por não terem sido localizados durante as pesquisas. "Esses me param na rua e vêm reclamar porque ficaram de fora", conta Zanetti. Em 2006, ela recebeu um telefonema da Fazenda Casa do Jacarandá, antiga propriedade do ex-presidente Tancredo Neves. O atual proprietário queria constar da lista como Cunha, seu sobrenome por parte de pai. Está lá, na página 20, telefone (37) 3381-0925. Em outras freguesias, Cunha é mais conhecido como Aécio - aquele Aécio, de Inês Maria, de Tancredo.


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