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O pedreiro que gostava de reggae

José Roberto Santos é agora uma estatística

por Luiz Maklouf Carvalho

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Eram quase 10 horas de uma calorenta manhã de setembro quando o advogado Gilberto de Oliveira, 62 anos, chegou ao seu apartamento, no Portal do Morumbi, condomínio de classe média em São Paulo. De short e sem camisa, ele se preparava para tomar banho quando ouviu uma explosão. Da janela, viu um andaime em chamas no prédio ao lado. Foi logo para o térreo, tentar ajudar. O advogado conta o que viu: "O homem estava pendurado no andaime, segurando uma corda com a mão direita. De cima do prédio, o pessoal da Brigada de Incêndio tentava jogar uma outra corda, mas o fogo atrapalhava. O homem dependurado não agüentou muito tempo. Ele tentou trocar de mão. Vi o rosto dele perfeitamente, a vontade que ele teve de pegar a outra corda. Não deu. Ele caiu numa velocidade enorme, em chamas, ao lado de um pé de uvaia. Houve outras duas ou três explosões. No chão, ainda vi o homem abrir e fechar os olhos".

O homem morreu pouco depois, na ambulância do condomínio, a caminho de um pronto-socorro. Ele se chamava José Roberto Santos. Era um pedreiro baiano de 36 anos, doido por reggae, que morava no Capão Redondo, na periferia paulistana. Tinha dois filhos, João Pedro, um bebê de sete meses, e a garota Sabrina, de doze. Todos os sábados, por volta das 19 horas, infalivelmente, o pedreiro saía de sua casa, de dois cômodos. Ia para o bar que construíra embaixo, e botava um CD no aparelho de som. Lá ficava, até de madrugada, tomando cerveja e ouvindo, no volume máximo, discos de Bob Marley, Edson Gomes, Tribo de Jah e Itamaraty. A irmã dele, Cristina, calcula que Santos tinha uns cinqüenta CDs de reggae. "Foi seu único luxo na vida", diz. O pedreiro trabalhava havia três anos no Portal do Morumbi. Só com o salário, aos poucos construiu sua casa e o bar, que só abria aos sábados. A polícia, às vezes, passava lá e reclamava do barulho. Santos não ligava.

Na manhã de 14 de setembro, ele contou a um colega, Sebastião Nunes, que tivera um "sonho terrível": ao atingir o 25° andar, o andaime em que trabalhava teve problemas. Em seguida, Santos subiu num balancim de aço, acompanhado por Aderlândio Cordeiro. Pouco mais de um metro abaixo, num outro andaime, estavam Sebastião Nunes e Gildete Fagundes. Quando Santos atingiu não o 25°, mas o 23° andar, houve a explosão.

Pegaram fogo as latas de thinner e outros produtos químicos, usados na limpeza do prédio. Em chamas, Cordeiro caiu sobre o andaime debaixo, incendiando as latas com as quais Fagundes e Nunes trabalhavam. Fagundes se desequilibrou, mas conseguiu segurar uma corda. Agarrado a ela, desceu até a altura do sétimo andar. Então, não agüentou mais, soltou a corda e caiu - em queda livre. Cordeiro e Nunes puderam ser içados pela Brigada de Incêndio. Os três sofreram queimaduras graves.

Instalado numa área de 170 mil metros quadrados, com dezesseis prédios, o Portal do Morumbi tem 276 funcionários, e um orçamento anual de R$13 milhões. Seus administradores não falam sobre o acidente. Jornais paulistas publicaram que a explosão ocorreu quando Santos acendeu um cigarro. Sua irmã Cristina nega que ele fumasse. Não se sabe se as condições de segurança dos quatro pedreiros eram as exigidas pela legislação. O que se sabe é que não poderia haver latas de thinner no solo. Foi sobre elas que Santos caiu, provocando novas explosões. Sebastião Nunes, o colega que ouviu Santos contar seu sonho terrível, disse que os quatro acidentados estavam seguros nos andaimes.

Nunes foi levado da obra para a Santa Casa, no centro de São Paulo. "Ô Preta, Jesus apagou o fogo da minha roupa", disse ele à mulher, Altina, no leito do hospital. Ela mandou a filha Fabiana, de 26 anos, evangélica como os pais, procurar na Bíblia o significado da frase. A jovem desconfia que achou o significado em Isaías, 41-43: "Quando passares pelo fogo, não te queimarás, nem a chama arderá em ti". A Santa Casa deu alta a Nunes no dia seguinte ao acidente. "Ele veio para casa visivelmente sem condições", reclama sua mulher. Ao ser levado para os curativos num outro hospital, Nunes foi reinternado.

No Capão Redondo, gente que reclamava da altura em que o José Roberto Santos ouvia seus CDS agora sente falta do reggae das noites de sábado. "Ele era um cara firmeza", diz o motoboy Fabiano Nogueira, de 21 anos. "Zé Roberto era bacana, humilde, respeitava todo mundo", lembra Jeferson Aparecido, de 17. O pedreiro baiano é agora uma estatística. O último levantamento oficial informa que 2.801 brasileiros morreram, em 2004, em acidentes de trabalho

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