Uma banda que não vive de hits. Uma música que despreza a melodia. Letras que não se apoiam em refrões. Rock em estado primal: hipnótico, estridente, grave, monocórdico, imerso em diatribes poéticas abstratas e com dose bruta de existencialismo. Tudo isso e algo ainda mais idiossincrático significa The Fall.

As características essenciais do grupo inglês de Manchester fundado e liderado pelo vocalista Mark E. Smith, são como um apanhado do que muitos constumam categorizar, seja para o bem ou para o mal, de banda cult. Não é à toa, portanto, que o Fall foi confirmado como atração do festival No Ar Coquetel Molotov, o mais cult dos festivais independentes do Brasil, não hesito dizer, nos próximos dias 11 e 12/10, em Salvador, e nos dias 14 e 15/10 no Recife. Uma pauta inevitável. Um show imperdível.

The Fall é um patrimônio do rock enquanto arte iconoclasta, junto a nomes como Pere Ubu, Birthday Party, Sonic Youth, Captain Beefheart, Can. Tem uma intensa e duradoura carreira, iniciada em 1976 na fenda aberta pelo punk. Foram 28 álbuns gravados até então. 28 experiências. Entre a glória do autor e o sucesso de público, The Fall optou por fazer discos confessionais. Talvez resida aí o fator que a torna a banda mais confiável do rock inglês, segundo o The Independent.

Mark E. Smith, único remanescente da formação original da banda, é o próprio The Fall. Tudo gira em torno dele. As guitarras soam como o resmungo que marca seu canto falado de forma desconexa; o ritmo é concebido a partir de contratempos que refletem o estado de espírito desse senhor rude de 54 anos.

Só assim podemos compreender a razão da banda manter uma identidade musical única e, possivelmente, o motivo de tantas alterações em sua formação durante o tempo. Passaram pelo The Fall nada menos do que 66 músicos nos seus 35 anos de carreira.

Dentre as tantas mudanças, duas foram divisoras de águas, por motivos totalmente relacionados ao Mr. The Fall, é claro. A participação da guitarrista Brix Smith, ex-esposa de Mark E. Smith, e da tecladista Elena Poulou, atual Sra. Smith.

Brix Smith (foto ao lado) foi determinante na guinada mais pop, digamos, do Fall registrada nos aclamados The Wonderful and Frightening World of The Fall (1984), This Nation's Saving Grace (1985), Bend Sinister (1986) e The Frenz Experiment (1988). Com músicas estruturadas de forma mais convencional o sucesso comercial bateu à porta do feliz Mark E. Smith, que permitiu a loira platinada Brix até interceder no visual operário da banda.

Já Elena Poulou, casada com Mark desde 2001, participou dos The Real New Fall LP, (2003), Fall Heads Roll (2005), Reformation Post TLC (2007), Imperial Wax Solvent (2008) e Your Future Our Clutter (2010). Sem dúvida, a fase mais angulosa do Fall no sentido de recriação.

Foi um período em que a banda passou a explorar mais a eletrônica pelos caminhos da IDM (Inteligent Dance Music), tendo como ponto alto o Reformation Post TLC. Essa determinação exploratória, inclusive, levou Mark a participar do projeto Von Sudenfed, com o duo alemão de krautrock Mouse on Mars. Resultou numa pequena obra-prima: Tromatic Reflexxions, também lançado em 2007.

Mas para esse escriba de linhas mais que tortas aqui, a melhor pedida para preparar o espírito para o show do The Fall é ouvir em alta rotação o Imperial Wax Solvent. O disco elabora um circuito integrado de sintetizados digitais e sonoridades punk, sujas e garageiras. Espécie de homenagem e elogio a Captain Beefheart e Can, com Mark E. Smith destilando suas confissões e revelando a pérola 50 Year Old Man, um delírio de 11 minutos onde canta os desconcertantes versos: "I'm a 50 old man/ and I like it/ I'm a 50 old man/ What are you gonna do about?".

Recriar, criar e se manter distinto. É o que o futuro exige. É o que faz do The Fall uma banda que merece ser objeto de culto.

The Fall - 50 Year Old Man