Em 1974, eu estava entrando na ECA USP para fazer o curso de composição. Lembro que nessa época, eu já refletia, maravilhado, sobre a potência que existe em uma partitura. Pensava: como é possível, você abre as "Invenções a 2 vozes" de Bach, olha aquela partitura, meros sinais, códigos impressos, que no entanto, condensam vida! Uma vida que pulsa assim que você começa a tocar. Aqueles sinais se transformam em vida plena, carregada de sentido e emoção, e inteligência, e virtude! Meu Deus, você, ao compor, está criando vida! Aquilo que se reengendra e ilumina, com sua luz, novos instantes, e inaugura um tempo, uma outra linha temporal, paralela a da nossa existência, que coisa louca!

Lembro que quando experimentei LSD, em 1973, percebi claramente, de forma irrefutável, traumatizante, a eternidade do instante. Somos perecíveis. E, o mais aterrorizante, foi perceber que construímos uma maneira de viver que torna possível evitar, a qualquer custo, a consagração da vida. Nossos instantes são descartáveis, não são imprescindíveis, servem apenas para matar o tempo.

Mas, enfim, eu estou divagando. Voltando ao assunto inicial, eu acho absolutamente incrível essa qualidade da música, de se fazer viva, séculos depois de haver sido criada. Você abre o "Cravo bem temperado", começa a tocar, e aquilo está absolutamente pleno de vida! Aí, só falando como o William Blake mesmo: “Tygre, tigre, brilho brasa, que a furna noturna abrasa, que olho ou mão armaria tua feroz simetria …………..Teu cérebro, quem o malha? que martelo? que fornalha o moldou? que mão, que garra seu terror mortal amarra?” (na linda tradução de Augusto de Campos ).

Essa é uma qualidade, essa, a de se concretizar, de existir potencialmente, e de repente ganhar vida, e isso, PERPETUAMENTE, é uma qualidade inerente a poesia, porque basta ler o poema para que ele adquira vida. Não há necessidade do mediador, do instrumentista. É só ler. Isso sempre me abismou.

Lembro quando li e estudei com um amigo, o Henricão, (que era professor de literatura num cursinho preparatório para vestibular), o Donna mi prega (pediu-me uma senhora) de Guido Cavalcanti. Conforme ia lendo e desvendando o poema, ia ao mesmo tempo me perdendo, vendo a futilidade da existência comum, a alienação diante da vida…. Tudo ia se tornando tão fútil, assustava…

Mas estou divagando novamente, Dio mio!!

Talvez seja interessante colocar alguns links de uma peça da Paixão segundo Mateus de Bach, o Erbarme dich. Isso ajuda bastante a compreender, como esses sinais, rabiscados no papel, depois impressos, que chegam até nós hoje me dia, como esses sinais são carregados de vida, como eles tem a capacidade de instaurar um tempo, de fazer com que um tempo consagrado se inicie novamente. Esse trecho, é o momento em que o discípulo Pedro percebe que negou Jesus 3 vezes antes do galo cantar, e está profundamente arrependido e emocionado.

Uma interpretação comovente é a de Julia Hamari. Embora não seja considerada fiel ao estilo da época, com muitos vibratos nas cordas, etc… a entrega dela é tocante, ela está completamente em transe, vivendo a música, maravilhosa!  … Delphine Galou faz uma versão de época, histórica, como dizem, também muito bonita, dá pra perceber a diferença nos arcos dos instrumentos, arcos barrocos, de desenho diferente dos atuais …. e Damien Guillon, contra-tenor, também em versão de época, muito interessante também…. talvez ela tenha sido escrita para contra-tenor originalmente, isso eu realmente não sei dizer...

 

Julia Hamari

 

Delphine Galou

 

Damien Guillon