Mestre Candeia já sabia: o samba pode ser um modo sofisticado de filosofar. Em Filosofia do samba, ele questiona a razão, zomba dela, pois a razão fica sempre com dois lados, diz uma coisa e faz outra, é engano porque promete o que não cumpre, fala o que não faz; é ideologia. Candeia aponta a falsidade, e a sabedoria do sambista está em revelar este falso saber, pois o que a razão diz não é verdade, é ilusão. O pensamento do compositor popular se articula de outra forma: vai além da aparência racional, aponta sua fratura, despreza a razão e põe a falsidade a nu, sambando. Um outro pensar, uma outra filosofia. Paulinho da Viola canta Candeia:

Olgária Matos, no ensaio Theatrum mundi: filosofia e canção,  fala da presença na canção brasileira “de uma filosofia moral que ensina a lidar com os prazeres e dissabores. São conselhos, máximas, ensinamentos  que visam promover a vida  feliz. A filosofia orientaria os homens em meio à dança da ilusão. O mundo é aparência, os homens, atores que representam seus papéis e escondem sua verdadeira face. Teatro de máscaras, aí está o topos estóico do teatro do mundo, presente, por exemplo, no samba Filosofia, de Noel Rosa.


Trecho do documentário “Meu tempo é Hoje”, dirigido por Izabel Jaguaribe

Na poética de Paulinho da Viola podemos ver a canção como um lugar de reflexão sobre o mundo. Dentro do mundo, o recorte dos temas vai ser feito pelo olhar do poeta, que reflete e decanta a vida e a morte, o amor e a solidão e, também, a sua expressão, o samba. Se por um lado Paulinho da Viola sinaliza uma reflexão sobre as coisas do mundo, por outro seria precipitado filiar sua sinalização a alguma corrente filosófica já existente e sistematizada. Digamos que o sambista exerce seu livre pensar diante de si, do mundo e de sua obra e que seu filosofar é antes a atitude resultante de uma contemplação apaixonada do mundo. A ambigüidade presente nesta atitude – contemplação apaixonada, já que contemplação indica um estado de serenidade, impertupabilidade diante das emoções e paixão, um arrebatamento, esta atitude híbrida tonaliza sua poética.


Trecho do documentário “Meu tempo é hoje” dirigido por Izabel Jaguaribe

Em Coisas do mundo, minha nega o poeta narra seu percurso noturno pelas ruas da cidade até chegar ao feliz destino dos braços da amada. Crônica que retrata um cenário trágico de carência, dor, embriaguez, morte, mas também lugar de humor e de amor. O samba dialoga com o que acontece na madrugada: zomba do azar de um, serve de acalanto para outro e silencia diante da morte. Os braços da amada são o  porto seguro do poeta: é aí que ele se sente pleno e diz a ela que seu amor é maior que a palavra e que a música, que seu amor é maior que o samba; que o amor é um samba sem melodia ou palavra. A experiência vivida é incomparavelmente maior do que o que a linguagem pode expressar. Como em Para ver as meninas, está presente aqui o tema do limite da linguagem para poder expressar a vida, e, por isso, a valorização do silêncio como receptáculo do indizível, como modo de dizer o que não pode ser dito. Como a palavra nunca diz tudo, o silêncio aparece como modo de expressão da infinitude. Desenvolvi estas reflexões em meu livro Ensaiando a canção: Paulinho da Viola e outros escritos.

José Miguel Wisnik, em Gaia Ciência– literatura e música popular no Brasil  fala que no Brasil formou-se “uma nova forma de gaia ciência, isto é, um saber poético-musical que implica uma refinada educação sentimental.” Eu vejo esta gaia ciência  manifestar-se nas canções que Paulinho da Viola compôs ou interpreta na forma de um lirismo delicado e profundo, que pergunta o porquê das coisas do mundo, do movimento das paixões, que reflete sobre o seu fazer artístico – a canção -, buscando o sentido do tudo que envolve estar vivo e sensível no meio do mundo. E este sentimento, esta meditação são transubstanciados em arte, em canção:

A canção brasileira é este lugar privilegiado do entrecruzamento da arte e da filosofia. Nasce da contemplação, da meditação sobre a vida e da vivência dos compositores populares. Nasce, como ensinou Manuel Bandeira falando da poesia, no chão do mais humilde cotidiano. É daí que alça seu vôo pleno, habita a vida  e o céu dos brasileiros,  e reluz com tamanho esplendor que até a lua fica tonta. Estrela d’alva.  E todos cantam, pra consolo da lua e da alma.


Trecho do documentário “Meu tempo é hoje” dirigido por Izabel Jaguaribe