Fela Kuti não quis a melodia beatle de Paul McCartney no seu afrobeat. Nem o selo Motown na sua seminal discografia. Quando sugestionado sobre a diminuição do tempo de suas músicas para torná-las mais acessíveis ao mercado fonográfico americano, Fela respondeu com afrobeats de 15 longos, luminosos e subversivos minutos. Por ter sido radicalmente avesso à padronizações, à qualquer proposta que pudesse levar sua arte a um estado de domesticação ou desfiguracão, Fela Kuti se tornou um ícone da música como instrumento de libertação, munição ou arma do futuro. Hoje, 15 de outubro, data do seu aniversário, é dia de Felabration, de celebrar a obra de Fela Kuti.

Se vivo, o pai do afrobeat estaria completando 73 anos. Se bem que ultimamente a onipresença de sua obra, seja por influência musical, citação política e identificação com ações libertárias, nos dá a sensação de que Fela Anikulapo Kuti está mais do que vivo.

Fela Kuti está em todos os lugares. A República Kalakuta (como se referia à sua residência) expandiu. Está na arte, no desejo de Spike Lee de levar às telas a história do Black President inspirado na biografia Fela - Esta Puta Vida, de Carlos Moore. O musical Fela! percorre o mundo após uma bem-sucedida temporada de estreia na Broadway, arrebatando a crítica e endossando a importância da obra de Fela Kuti.

Os filhos de Fela também estão em todos os lugares. Um vasto elenco de herdeiros, não apenas fruto da lida de Fela Kuti com suas 27 esposas legítimas, como os pródigos Seun Kuti e Femi Kuti. Um legado de panteras negras musicais que integra continentes e culturas, convergindo os ritmos de cada canto do planeta para dentro de uma batida. Um groove de todos os ritmos.

É o Afrika Shrine, santuário musical idealizado por Fela. Obra que não cabe em limites geográficos, conceituais e ideológicos: Antibalas, Budos Band, Nomo, Kutiman, Zozo Afrobeat, Chico Mann, Nacão Zumbi, Lucas Santana, Bixiga 70, Burro Morto, Nomo, entre outros. Legado Kuti que leva a sério o caráter revolucionário do pai do afrobeat, estética, musical e politicamente falando.

Ei-lo novamente. Sempre. Fela Kuti. Maestro, cantor, multiinstrumentista, dançarino. Ativista. Herói nigeriano. Ídolo global. Encarnação do valor cultural que se sobrepõe às fajutices colonizantes. Sua luta para refundar o panafricanismo, "retirando-o" das mãos das oligarquias nigerianas, o tornou sujeito da mais expressiva tradução de vida em arte, de obra artística em plataforma política, de engajamento em movimento sócio-cultural.

A África que quer ser livre e do tamanho de sua riqueza quer ser Fela, tal o envolvimento da obra de Fela Kuti com o continente. O mundo precisa ser Fela: diverso, catalisador, tanto de ritmos quanto de cores e linguagens. Mestiçagem que sugere integração e conseqüente compartilhamento de riquezas, caminho inverso da globalização regida pelo já decadente receituário neoliberal do planeta.

Sim, afrobeat é compromisso. E como sentenciou Fela Kuti, música é a arma. Nem seria necessário explicar o porquê da afirmação, mas aproveito para complementar esse post-tributo a Fela Kuti com o documentário "Music is The Weapon". Dirigido pelos franceses Jean-Jacques Flori e Stéphane Tchalgadjie, explica bem com um belo registro histórico da vida e obra de Fela Kuti.

 

Music is the weapon (Música é a arma)

Direção: Jean-Jacques Flori e Stéphane Tchalgadjief 
Produção: França, 1982 
Lançado em 2003 
Duração: 53 min