Pouco depois da Segunda Guerra Mundial, o telefone passou a substituir quase todos os bilhetes até então enviados para pequenos recados. Nada destinava portanto a carta reproduzida nesta página − escrita em 1948 por um menino de dezesseis anos e dirigida a um escritor consagrado − de sobreviver ao destino comum a tantos outros milhões de missivas manuscritas, lidas e descartadas.

Neste caso, o que salvou do lixo esta folha de papel foi a decisão casual do destinatário de usar o verso em branco para o rascunho de um artigo que precisava escrever para um jornal.

O grande escritor que recebe a carta é o poeta e romancista Jean Cocteau, talvez o mais importante animador cultural da França no século XX. Cocteau tinha tantos talentos que, por muito tempo, uma maioria de invejosos não aceitou que pudesse exercê-los de forma tão plena. Se tivesse sido apenas romancista seria lembrado hoje por uma obra significativa. Se apenas poeta, estaria entre os mais respeitados. Sua simples obra de cineasta também teria lhe valido uma sólida posteridade entre os maiores diretores franceses de seu tempo, assim como seu trabalho de desenhista se destacaria entre as obras semelhantes do período.

Mas como Cocteau era bom em tudo, a tendência natural de seus contemporâneos foi acusá-lo de ser superficial em cada coisa que fazia. Uma tal variedade de talentos nunca poderia ser perdoada em vida e só agora − quase cinquenta anos após sua morte − a figura de Cocteau emerge finalmente com uma plena aceitação da qualidade de suas múltiplas obras. 

O acaso quis então que Cocteau usasse o papel da carta do garoto para escrever seu artigo de protesto contra a censura a um filme de um cineasta francês, que causava polêmica na época.

Já muito famoso em 1948, Cocteau dispunha de uma legião de amigos, amantes e secretários que recolhiam seus rascunhos e manuscritos, esparsos nas folhas que encontrava à mão quando precisava escrever. Com isso foi preservada a carta do menino de dezesseis anos que pedia ao “Mestre” Cocteau que comparecesse à exibição sua própria obra-prima, filmada em 1932, “O Sangue de um Poeta”, que o jovem admirador queria mostrar no âmbito de um cine-clube que pretendia criar.

Antes das fitas de vídeo, dos DVDs e da internet, assistir a um filme era um privilégio que dependia da iniciativa dos detentores dos rolos, quase sempre as distribuidoras ou salas de cinema estabelecidas. Como estas, por razões comerciais, raramente ou nunca voltavam a exibir filmes antigos, cabia aos fãs e conhecedores de cinema organizarem cineclubes.

Hoje bastam apenas três cliques de internet para se chegar pelo menos a um trecho, senão à totalidade, de muitos clássicos do cinema. Na época havia quem viajasse um dia inteiro de trem para assistir a um filme raro programado numa cidade distante. O menino precoce de dezesseis anos era um desses apaixonados, e sua carta para Cocteau é comovente:

“Mestre, aqui nada de lisonjas, nada do blá blá blá usual, nenhuma dessas fórmulas clichês que só tem como objetivo dissimular a verdadeira personalidade daqueles que as empregam.

Estou fundando um clube de cinema que não dispõe de publicidade de qualquer tipo.

A sessão inaugural ocorrerá domingo dia 14 com a exibição de “O Sangue de um Poeta”. De sua presença ou ausência depende a vida ou a morte de meu “Círculo Cinemania”. Este Circulo é como uma criança prematura, tem pouca chance de sobrevivência.

Precisa de uma incubadeira − que só pode ser o senhor. Se aceitar apresentar seu filme domingo, às 10 da manhã, a criança sobreviverá. Senão, será mais um natimorto.

É com um pouco de angústia e muita esperança que aguardo, mestre, a sua resposta. Receba, com esta súplica, minhas saudações de muito respeito e admiração”.

 

Cocteau não compareceu à abertura e o “Circulo Cinemania”, conforme previa o menino, morreu. Dez anos mais tarde, Cocteau compareceria à consagração no Festival de Cannes da primeira das muitas obras primas do menino que lhe escrevera, e o velho poeta manifestaria com entusiasmo  toda sua admiração pelo talento do jovem cineasta. O menino chamava-se François Truffaut.