Há pouco mais de um ano, o biólogo Stevens Rehen, professor da UFRJ, escreveu em seu blog um post que discutiu um sério obstáculo para a produtividade dos cientistas brasileiros: a dificuldade para a importação de material de pesquisa. Rehen apresentou os resultados de um levantamento feito junto a 165 pesquisadores de 35 instituições brasileiras:

76% dos cientistas já perderam material científico preso na alfândega, 99% resolveram mudar os rumos de suas pesquisas em virtude das dificuldades para importar os reagentes necessários enquanto 92% têm de esperar no mínimo 1 mês pela chegada dos reagentes.

O cientista concluiu seu texto em tom pessimista:

Somente uma ação coordenada será capaz de viabilizar o desembaraço ágil de produtos cruciais ao progresso científico brasileiro. Não nos transformaremos em potência científica e tecnológica enquanto a burocracia continuar interferindo no acesso a materiais essenciais à geração de conhecimento, principalmente na área biomédica.

Compare agora as reflexões de Rehen com o texto abaixo, sobre o qual se dará mais detalhes a seguir:

Não é difícil enxergar uma convergência nas preocupações dos cientistas que escreveram os dois textos. A coincidência não seria chamativa, não tivessem eles sido publicados com mais de meio século de intervalo. O segundo texto data de 28 de dezembro de 1958 – o Brasil ainda celebrava a primeira Copa do Mundo que conquistara meses antes. Foi publicado no Jornal do Commercio, do Rio de Janeiro.

O texto de 1958 permanece atual e não espantaria se fosse publicado num jornal de hoje, com exceção de uma ou outra expressão que soa um pouco datada para o leitor do século 21. Apesar de avanços consideráveis conquistados nos últimos anos, a burocracia para a importação de equipamentos, reagentes e outros itens essenciais para a pesquisa continua entre os principais entraves para a prática científica no Brasil.

O texto do Jornal do Commercio mostra que não vem de hoje a mobilização da comunidade científica brasileira para lutar contra a burocracia para a importação de material de pesquisa. Ele foi publicado numa página dominical de ciência que esse diário carioca manteve entre novembro de 1958 e agosto de 1962. Essa página era escrita e editada por pesquisadores brasileiros de várias instituições, principalmente do Rio. Foi criado por iniciativa de Walter Oswaldo Cruz, filho do famoso sanitarista, e contou com a contribuição de nomes como Oswaldo Frota Pessoa, Herman Lent, Haity Moussatché, José Leite Lopes e José Goldemberg.

Essa iniciativa foi lançada num momento histórico em que os pesquisadores brasileiros buscaram a imprensa para falar de ciência para a sociedade e para reivindicar seu apoio na luta por melhores condições de trabalho. Além da importação de material de pesquisa, eles defendiam em seus artigos a valorização da carreira de pesquisador, melhor infraestrutura para os laboratórios e a criação de programas de bolsas de estudo, entre outras bandeiras.

A boa notícia é que a história da página de ciência do Jornal do Commercio acaba de ser resgatada num livro organizado por Luisa Massarani, Claudia Jurberg e Leopoldo de Meis. Lançado pelo Museu da Vida/Fiocruz, Um gesto ameno para acordar o país reúne artigos que discutem essa interessante experiência e explicam como ela se insere na história da divulgação científica no Brasil. Encartado no livro, um DVD traz a cópia de quase toda a coleção dessa página dominical de ciência.

O livro será lançado na próxima terça-feira, 22 de novembro, no Rio de Janeiro, na Casa da Ciência/UFRJ. Haverá na ocasião uma mesa-redonda com a participação de Luisa Massarani, Leopoldo de Meis, Ildeu de Castro Moreira e do blogueiro, que contribuiu com um capítulo do livro. Na ocasião, será lançado também o site Brasiliana, criado pelo Museu da Vida para reconstituir a história da divulgação científica no Brasil. Mas essa é uma iniciativa tão rica que merece ser discutida em detalhes noutra ocasião.

Foto: Martin aka Maha (CC 2.0 BY-SA)