Werner Herzog definiu a função do diretor de cinema como sendo análoga à “de um contador de histórias no mercado de Marraqueche rodeado por uma multidão”. E completou: “isso é o que eu sou – um contador de histórias”, negando além disso, mesmo no caso de documentários, a importância do espectador ser informado sobre fatos históricos relacionados ao assunto dos filmes. Daí o termo “documentário” vir sempre entre aspas no capítulo “Fato e verdade” de Herzog on Herzog, livro em forma de depoimento editado em 2002, no qual ele afirma ter o desejo de ser “um dos que terminem enterrando o cinema verdade para sempre”. Por cinema verdade, entenda-se cinema direto – gênero de documentário, surgido a partir do final da década de 1950, baseado na observação de eventos e personagens.

É preciso cautela, portanto, diante de A caverna dos sonhos perdidos, exibido na abertura da mostra em curso no Instituto Moreira Salles, no Rio de Janeiro. Para não ser iludido, ou para aceitar a possibilidade de ser iludido, o espectador deve estar prevenido de que um pressuposto básico do documentário poderá ser desrespeitado – o de que informações, citações, situações, relatos etc. não sejam inventados.

Por defender a capacidade da poesia, e do cinema, lidarem com dimensões “mais profundas do que a chamada verdade” encontrada em documentários, Herzog recusa  os parâmetros usuais do gênero, obrigando o espectador a estar atento ao seu descompromisso com os fatos

Há inúmeros exemplos dessa liberdade que Herzog concede a si mesmo. Ele não esconde que inventou a epígrafe de um filme, em outro contratou bêbados para passarem por peregrinos, e num terceiro pediu a uma entrevistada para contar um sonho como se fosse dela, quando na verdade fora ele, Herzog, quem tivera o sonho.

Ao se definir como um contador de histórias, Herzog procura legitimar seu método de começar inventando e brincando com “os ‘fatos’ como os conhecemos”. Diz ele: “através da invenção, da imaginação, eu me torno mais verdadeiro do que os pequenos burocratas.” Por “pequenos burocratas” entenda-se praticantes do cinema direto. Aceitos seus pressupostos, e sabendo que não admite ser tolhido pelos parâmetros usuais do cinema documentário, há um vasto conjunto de filmes realizados pelo prolífico Werner Herzog a ser visto – de modo geral interessantes, embora desiguais, sendo alguns excepcionais, como é o caso de O homen urso (2005).

Atraído por personagens excêntricos e situações de risco, Herzog já filmou em vários recantos do mundo – na Antártica, no Sahara e no Caribe, ao pé de um vulcão prestes a entrar em erupção. Contador de histórias viajante, considera “turismo um pecado, e viajar a pé uma virtude”. Diz ter dado a volta completa na Alemanha caminhando ao longo da fronteira, e ter ido de Munich a Paris a pé, na esperança de que sua amiga – a crítica e historiadora Lotte Eisner –, vítima de enfarte, não morreria enquanto estivesse andando.

Com essas credenciais, Herzog tinha tudo para ser convidado a dirigir A caverna dos sonhos perdidos e filmar em 3D imagens inéditas da Caverna Chauvet, encontrada no sul da França, em 1994, depois de ficar isolada do exterior por 20000 anos.

O que atrai Herzog é o ineditismo da empreitada, a dificuldade de acesso, as restrições impostas à filmagem e a oportunidade de especular sobre pinturas consideradas as mais antigas feitas em cavernas – há 32000 anos, segundo o dado oficial, embora haja controvérsia a respeito –, encontradas junto com restos fossilizados, marcas deixadas por animais, pegadas e até a impressão da palma de uma mão, deixada possivelmente por um dos autores das pinturas. Mais do que tudo, porém, o que fascina Herzog é a oportunidade de dar curso à imaginação, de fazer associações livres, distante de qualquer concepção estreita do que seja um documentário, como a citação de Ritmo louco, (1937) no qual Fred Astaire dança com suas três sombras que no final da sequência se tornam autônomas.

Ao mesmo tempo, sendo quem é, era de se esperar que ele mesmo faria, em seu inglês característico, a narração off na qual predominariam especulações pseudo-poéticas e filosóficas, extrapolações forçadas – como a de falar em “proto-cinema” pelo fato da superposição das pernas de um grupo de animais pintados sugerir movimento –, sequências inesperadas e depoimentos de personagens bizarros – como pesquisadores que recorrem ao olfato para localizar cavernas pré-históricas, ou que tocam o hino nacional americano com uma flauta reconstituída a partir de fragmentos arqueológicos. Essa é a essência dos chamados “documentários” de Werner Herzog que nem sempre estão à altura da sua ambição e frequentemente, como neste caso, erram a mão na escolha da trilha musical mesmo quando não recorrem a Wagner.

Mas por mais prevenidos que estejamos em relação a Herzog, quem poderia esperar o posfácio sobre crocodilos albinos radioativos? Ao espanto do produtor de A caverna dos sonhos perdidos quando foi informado que essa cena seria incluída no filme, corresponde a do espectador. Para Herzog, no entanto, não há nada mais simples – é uma fantasia pseudo-ficção científica que para ele ilumina mais do que a descrição precisa de fatos. Percebendo que há um limite para sua observação, que  há um mistério impenetrável nessas pinturas, Herzog tenta ir além do visível.

Apesar de considerar “turismo um pecado”, Herzog não revela incômodo com a possibilidade de A caverna dos sonhos perdidos servir para atrair turistas para a região.

Peter Bradshaw, no The Guardian, não deixou de assinalar o interessante paralelo de A caverna dos sonhos perdidos com A caminho da eternidade, filme dirigido por Michael Madsen comentado em post anterior. Os pintores do paleolítico deixaram nas paredes da Caverna Chauvet uma mensagem para o futuro cujo sentido não sabemos decifrar.

 

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Capela Sistina subterrênea