Errol Morris define Tabloide, exibido na mostra Panorama do Cinema Mundial, no Festival do Rio, como sua “primeira história de amor desde Gates of Heaven [Portais no céu, seu primeiro filme, feito em 1978, sobre dois cemitérios de animais de estimação, na California], uma história de amor estranha, mas muito romântica.”

É uma definição desconcertante, ainda mais quando Morris diz estar “contente por ter feito um filme engraçado.”

Joyce McKinney – personagem central que se referiu a Tabloide como sendo uma “catástrofe de celuloide” – integra uma galeria de excêntricos, para dizer o mínimo, aos quais Morris dedica alguns de seus filmes. Um dos mais notórios é Fred A. Leuchter, o Senhor morte (1999), projetista e construtor de cadeiras elétricas. Alegando ter sido convocado como testemunha de defesa de um negacionista do Holocausto, Leuchter foi à Polônia investigar se teriam existido câmeras de gás para execuções no campo de Auschwitz.

No caso de Joyce McKinney, acusada de ter raptado e currado seu antigo namorado – um missionário mórmon – em 1977, Morris a considera “louca, romântica, obcecada, determinada e autodestrutiva”, não havendo por que discordar dele, ainda mais sabendo que ela pagou 25.000 dólares para ter seu Pit Bull clonado na Coréia do Sul, tendo como resultado cinco pequenos Pit Bulls.

Morris também é um obcecado. No seu caso, a obsessão consiste em investigar o passado tendo consciência da dificuldade de saber o que realmente ocorreu. Os eventos pelos quais se interessa podem ser inacessíveis, o que não o impede de investigar a verdade que, para ele, não é obscura.

No caso de Tabloide, Morris sabe que “alguma aconteceu naquela cabana” [para a qual o antigo namorado de Joyce McKinney teria sido levado por ela, contra vontade dele, em Devon, na Inglaterra]. “Nós talvez nunca possamos saber, com certeza, o que foi”, ele diz. “Eu não acredito que a verdade seja obscura. Fiz um filme inteiro sobre um assassinato, em Dallas, no qual fui capaz de reverter uma condenação à morte e tirar um homem inocente da prisão [A tênue linha da morte, de 1988]. O filme não é nada obscuro sobre quem puxou o gatilho, quem matou o policial, mas nossas tentativas de saber qual é a verdade, nossas tentativas de descobrir o que de fato aconteceu, podem ser difíceis, problemáticas, confusas, tortuosas.”

Narrativas e histórias seriam, segundo Morris, nossa maneira de “lidar com a realidade. Precisamos de narrativas”, segundo ele, “e o que tento fazer é mostrar como narrativas são construídas em oposição ao que pode ser a verdade.”

Daí vem o título Tabloide, referência aos britânicos Daily Mirror e Daily Express, cada um com seu viés. O primeiro, a favor de Joyce McKinney, o segundo, nas palavras dela, fazendo-a parecer uma “prostituta sado-masoquista”.

Errol Morris admite que todo mundo atua e chega a dizer que “a única diferença entre pessoas reais e atores ruins é que as pessoas reais sabem representar. Se houvesse um Oscar para melhor atriz de documentário, Joyce McKinney ganharia o prêmio”, ele declarou. A força da personalidade dela torna, aliás, o título do filme – Tabloide – meio inadequado pois é ela quem domina a cena.

Disponível no You Tube (Joyce McKinney Joins Errol Morris at DOC NYC 2010), o encontro entre Errol Morris e Joyce McKinney depois de uma projeção de Tabloide, em Nova York, abre novas possibilidades para entender o filme, as personalidades em jogo e a distância entre realidade e reconstrução documental.