Reproduzo a seguir o texto que serviu de base para minha participação no Seminário Ideias e Perspectivas – Panorama crítico da crítica, realizado ontem (26/1) na 15ª Mostra de Cinema de Tiradentes, com a participação de Luiz Carlos Merten e Fábio Andrade, tendo como mediador Francis Volgner dos Reis.

Embora também estivesse prevista, a participação de Jean Claude Bernardet acabou não ocorrendo, o que todos lamentamos.

Não é preciso dizer que o texto foi escrito antes do desabamento ocorrido no Rio na noite de quarta-feira.

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Quando li há pouco tempo o testemunho do Jean Claude Bernardet sobre Gustavo Dahl, publicado na revista Filme Cultura (nº 55, dezembro de 2011), achei que deveria trazer para este Seminário alguma coisa que pudesse servir para tentar manter a “casa já antiga” de pé, ainda que precariamente – quem sabe um tijolo, uma telha, ou um pouco de argamassa?

Em seu depoimento Jean Claude diz sentir a morte de Gustavo “como se desabasse o telhado de casa já antiga que ainda consegue se manter de pé, mas cada vez menos”.

Foi isso que, a princípio, me levou a aceitar o convite para participar deste Seminário, sem ter qualquer pretensão de traçar um “panorama crítico da crítica”, tarefa para a qual considero que minhas credenciais são frágeis.

Compartilho o sentimento de solidão ao qual Jean Claude também se refere a propósito da morte do Gustavo, tendo perdido, no meu caso, a partir de 1981, alguns amigos e colegas que me levaram a fazer cinema e foram meus primeiros mestres. As mortes deles, ao longo da década de 1980 e depois, abalaram para sempre os alicerces da minha casa.

Considero-me, portanto, um sobrevivente, e posso dar testemunho de que essa condição é contraditória, podendo abrigar felicidade e tristeza, além de aspectos dolorosos, e impor exigências dificeis de atender. Uma é viver sem se deixar aprisionar pela nostalgia, tentando não idealizar o passado, e pensando mais no presente e no futuro. Essa, aliás, é uma das inúmeras lições que Jean Claude vem nos dando há tempos, o que tornaria lamentável para mim ter perdido esta oportunidade de ouví-lo.

Na verdade, confesso, então, ter acabado percebendo que aceitei vir aqui hoje mais na esperança de receber algo do Jean Claude para manter minha própria “casa já antiga” de pé – talvez um tijolo, uma telha ou um pouco de argamassa, e não tanto por achar que seria capaz de ajudá-lo a manter a dele de pé.

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O que posso oferecer ao debate é pouco – apenas alguns fatos recentes, colhidos na imprensa nas últimas semanas, que parecem justificar minha sensação de que o edifício está ruindo, havendo um descompasso entre o que vem ocorrendo em âmbito mundial e nacional, há cerca de 30 anos, e o cinema produzido no Brasil, inclusive o modo de produção prevalecente desde a primeira metade da década de 1990.

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Um símbolo das transformações nas quais estamos imersos, e do desabamento do prédio, é a situação da Kodak. Se ainda fosse preciso comprovar estarmos passando por uma revolução tecnológica e cultural, um indicador poderia ser a notícia do pedido de concordata feito há uma semana pela empresa, fundada no final do século XIX e que se tornou sinônimo de filme e de cinema.

Em carta enviada à ASC (Associação Americana de Cinematografia) no dia 20, a Kodak reafirma seu compromisso em “continuar apoiando a indústria [...] manter as operações comerciais, desenvolver, fabricar e fornecer filmes de cinema de alta qualidade agora e no futuro”. Que assim seja.

Sobrevivendo ou não, mantendo o fornecimento de filme ou não, o simples fato das ações da Kodak terem perdido 90% de seu valor, e da única salvação possível para a empresa estar na passagem, mesmo que tardia, do suporte analógico para o digital, parece ser indicador seguro do desfecho das mudanças por que vem passando a área audiovisual. Mesmo sem conhecermos ainda perfeitamente os parâmetros da nova era, está claro que a natureza da imagem cinematográfica se alterou, assim como as condições em que filmes são vistos.

No setor de difusão do audiovisual, está previsto o surgimento de um novo patamar nos próximos seis meses, quando deverão ter sido lançados mais de cem novos canais de televisão pelo YouTube, levando ao surgimento do que vem sendo chamado de um YouTV. Essa expansão tanto do número de canais de televisão quanto da fragmentação da audiência acentuará a formação de nichos ainda mais especializados de espectadores.

Na produção, ressurge a antiga polarização entre arte e comércio, desta vez na Grã-Bretanha, onde está prevista uma revisão radical da política cinematográfica com o objetivo de promover a “marca britânica” na competição com o cinema francês e Hollywood. Pesquisa feita indica que o “filme britânico” é uma marca pela qual há demanda que deveria ser vendida ostensivamente.

Ken Loach, a antiga diretora do British Film Institute, e o antigo secretário de Cultura, defendem que o “filme britânico” seja um selo vendido para frequentadores de cinema como garantia de qualidade. Em posição oposta está o primeiro ministro, David Cameron, defendendo que a indústria de cinema britânica se dedique a “filmes de maior sucesso comercial”.

A analogia com a situação brasileira salta aos olhos, com a desvantagem de não termos uma “marca brasileira” que possa ser comercializada com um selo de qualidade – nem no mercado interno, nem no externo.

Vale lembrar ainda que, por ironia, foi no governo Lula que se consolidou uma política cinematográfica que daria orgulho ao partido Conservador inglês, prevalecendo desde então o apoio a projetos que sejam considerados “de maior sucesso comercial”.

Retomando velha questão já comentada há tempos pelo Jean Claude Bernardet, Luiz Paulo Horta escreveu no Globo há uns dez dias (15/1/2012), sobre sua tentativa de “descobrir por que o cinema argentino vem dando de dez na produção nacional”.

Uma razão possível, segundo Horta, é “que aqueles às vezes irritantes portenhos estão em contato com [...] ‘o sentimento trágico da vida’”. Por aqui, diz ele, “o sentimento trágico não é tão comum. [...] somos do batuque. E o fervor futebolístico também não resulta em tristeza. [...] Assim o sentimento trágico vai sendo exorcizado. O país é muito grande: quando aperta por aqui, desaperta por ali. Daí o filósofo Pagodinho querer que a vida o vá levando, não se sabe para onde.[...]

Mas como aqui ninguém acredita em tragédia”, completa Horta, “vamos gastando perdulariamente as vantagens de um cenário que tende a mudar. Com as nossas carências de infraestrutura, não iremos longe na competição com a China. Mas isso não é para já. Então, por que não pedir mais um chope, e ouvir o sambinha que acabou de sair do forno?”

Podemos discordar do Luiz Paulo Horta, é até achar a hipótese dele meio simplória. Mas não há como negar que é interessante. O batuque talvez não seja o único responsável, mas é preciso reconhecer que, de fato, o cinema argentino contemporâneo, assim como o iraniano, é muito superior ao brasileiro.

Outra razão pode estar no monstrengo burocrático criado no Brasil para dar suporte à produção cinematográfica.

Exemplo rápido das deformações geradas pelo modelo em vigor é o edital da Secretaria do Audiovisual do ministério da Cultura, aberto no final de dezembro, para apoiar a produção de documentários, no qual exige-se a apresentação de “roteiro [...] contendo sequências numeradas e desenvolvidas com as rubricas e diálogos necessários à plena compreensão da obra para fins de produção”! Vejam bem: exige-se de projetos de documentários o “roteiro” e “diálogos necessários à plena compreensão da obra”, o que é um duplo contrassenso, para dizer o mínimo.

Em artigo publicado no Globo no mesmo dia do artigo do Luiz Paulo Horta, José Joffily comenta o lançamento do seu mais recente documentário, Prova de artista, distribuído por ele mesmo e que teria sido visto nos cinemas por 9000 espectadores, número que me parece um tanto inflacionado.

O fato é que para não sair de cartaz, depois de algumas semanas de exibição em poucas salas com poucas sessões, José Joffily resolveu apelar para o streaming, disponibilizando o filme de graça na internet durante este mês de janeiro.

Segundo José Joffily, o filme estaria tendo mil acessos por dia (outro exagero?). E mesmo sem nenhum resultado financeiro, o “prazer seria imenso”. Para ele o streaming “pode mostrar um caminho saudável para expor milhares de audiovisuais espremidos num gargalo de distribuição que privilegia somente um tipo de filme ou pensamento. Não se trata”, diz Joffily, “de uma panaceia, mas a distribuição em streaming democratiza e atualiza a cultura audiovisual, sintonizando novas ideias num novo canal.”

Só posso dizer que para mim a opção do José Joffily parece um compreensível gesto de desespero de quem não vê outra saída a não ser se atirar do alto das torres para não morrer queimado.

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Quando os antropólogos Sol Worth e John Adair chegaram a Pine Springs, no Arizona, em 1966, para propor aos Navajo ensiná-los a fazer cinema, procuraram “um dos principais curandeiros na área”, velho amigo de Adair, para contar seus planos e conseguir a adesão dele ao projeto ( esse relato está em Through Navajo Eyes, de Sol Worth e John Adair. The University of New Mexico Press, 1972 ).

Depois de explicarem o que queriam fazer, o curandeiro, chamado Sam, com cerca de 80 anos na época, “pensou por algum tempo e aí fez uma longa pergunta que foi traduzida como, ‘Fazer filmes fará algum mal aos carneiros?’.

Diante da resposta de que “não havia possibilidade da feitura de filmes fazer mal aos carneiros”, Sam pensou mais algum tempo e perguntou: ‘Fazer filmes fará bem aos carneiros?’

Os antropólogos foram obrigados a admitir que até onde sabiam fazer filmes não faria nenhum bem aos carneiros. Sam voltou a pensar e, olhando para eles, perguntou: ‘Então por que fazer filmes?’”

Não será essa uma pergunta fundamental? Por que fazer filmes? Para que fazer filmes?

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Minha impressão é que perdemos a capacidade de pensar sobre cinema como um processo complexo, tendo passado a evoluir sem rumo, privilegiando filmes isolados. O País como um todo voltou a ser uma economia exportadora de produtos agrícolas e de minério, e a ter uma indústria obsoleta. Com isso, o perpétuo dilema entre protecionismo e competitividade, crucial para o setor cinematográfico, foi deixado de lado. A ampla disponibilidade de recursos incentivados, crescente desde 1994 para o cinema, fortaleceu a burocracia estatal que tolhe, por sua vez, a criatividade. Irrelevante no mercado interno e externo, a produção cinematográfica brasileira se tornou perdulária. Mais dia, menos dia, a conta será apresentada.

Imersos em celebrações e festividades, os entraves para fazer filmes parecem  ir se fortalecendo. Afinal, o problema talvez seja mesmo excesso de batuque.