A nova temporada de Ídolos, o reality-show da TV Record, começou, há uma semana (4/9), com baixo índice de audiência, menor que o do SBT e da Globo no mesmo horário, durante o qual foi exibido o Programa do Ratinho e o trecho de um filme, além das séries Tapas & Beijos e Gabriela.

A queda dos índices de audiência dos reality-shows não é novidade. O próprio Big Brother Brasil vem perdendo espectadores desde 2005, ano em que alcançou 45.5 pontos, tendo ficado na média de 27.1 em fevereiro deste ano, nas primeiras semanas da décima segunda edição.

Ainda assim são índices relativamente altos, e as emissoras persistem, tentando reviver o período áureo dos reality-shows. A Record, no final de agosto, mal terminada a quinta edição de A Fazenda, anunciou a próxima, na qual pretende introduzir inovações para concorrer com o Big Brother – segundo a própria emissora, os participantes serão pessoas anônimas, desconhecidas do público, pessoas que em outro contexto poderiam ser chamadas de pessoas comuns.

Não sendo adepto de reality-shows, a justificativa dos parágrafos acima, baseados em informações disponíveis em qualquer serviço de busca, é a lembrança de um artigo de Jean-Louis Comolli, crítico, cineasta e professor. Em 2001, quando publicou o artigo “Potências do vazio e plenos poderes” na revista Images Documentaires, o Big Brother original, criado na Holanda, começara, dois anos antes, sua consagradora carreira seguida de vários programas do gênero, como Survivor que, em 2000, inspirou No limite, o primeiro reality-show produzido no Brasil.

Republicado em Ver e poder – A inocência perdida: cinema, televisão, ficção, documentário (Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008), o artigo de Comolli começa indicando a existência de “certa convergência entre a recente generalização, aparentemente irresistível do ensino de cinema documentário (teórico e prático) nas universidades francesas (eu faço minha parte, já há quatro anos, na Universidade de Paris VIII) e o crescimento de uma televisão a princípio chamada ‘realidade’ e logo em seguida pejorativamente qualificada como ‘lixo’. As lixeiras, não podemos negar, fazem parte ‘da’ realidade: a nossa.”

Com deliberada intenção polêmica, Comolli assume “o risco de chocar o leitor”, ao indicar a existência dessa “convergência” entre o que define como a “telerrealidade de hoje” e o “ensino do cinema documentário”. Na verdade, o que pretende demonstrar é o oposto – a existência de uma divergência fundamental entre telerrealidade e documentário.

O que suscitou em mim a lembrança desse artigo do Comolli foi a ida à distante central de produção da Rede Globo, em Jacarepaguá, o chamado Projac, para falar sobre cinema documentário com a equipe de jornalismo do Domingão do Faustão.

No domingo anterior ao encontro, inquieto quanto à razão do interesse por documentários da equipe do Faustão, assisti o programa, que tem média de audiência de 16%, pela primeira vez, do começo ao fim. A principal atração do dia foi o início da etapa final da “Dança dos famosos 2012”, com apresentações de passo doble, precedidas por vários números de um desastrado Houdini, sem nenhum carisma, e da dupla sertaneja Munhoz e Mariano, tudo com pernas, braços e requebros servindo de pano de fundo. Perplexo, continuei sem entender o propósito da nossa ida ao Projac (João Jardim e Walter Carvalho também iriam, em dias diferentes).

Soube depois que as matérias do Faustão consideradas pela equipe como sendo de cunho jornalístico não são apresentadas todo domingo, e incluem as entrevistas feitas para o “Arquivo confidencial”, um dos quadros de maior sucesso do programa, de forte apelo emotivo.

Levar entrevistados às lágrimas – objetivo do “Arquivo Confidencial” – contraria, porém, as “lógicas e a moral do cinema”, para usar a expressão do Comolli. E até prova em contrário, é difícil vislumbrar interseção possível entre documentário e televisão, por mais bem intencionada que seja a jovem equipe do Domingão do Faustão com a qual conversei.

Segundo Comolli, “a realidade que está em questão na televisão […] pode ser chamada indiferentemente de ‘reflexo’, ‘espelho’, ou ‘lixo’. A televisão teria se tornado uma janela aberta para “o nosso mundo mental – mundo que a televisão não sabe, não quer, não pode reconstituir […] a não ser que ele próprio já esteja subordinado à televisão. De fato, a televisão filma antes de tudo a televisão.”

O cinema, escreve ele, procura resistir a essa “espécie de totalitarismo televisual […]. A televisão não se refere a mais nada que não seja ela. A televisão é a coisa representada pela televisão. Em um fatal abraço narcísico, ela se tomou como objeto e como sujeito. Ei-la no centro do mundo: ali onde há televisão. Voltada para si mesma, a telerrealidade nada pode filmar além de efeitos de espelho, nada pode fabricar além de uma especularidade circular: quadro, enquadramento, corpo quadrado, enquadrado, confinado em quadros.”

Na televisão, parece impossível conciliar as exigências de produção – técnicas, logísticas e financeiras – com parâmetros essenciais do documentário – longo tempo de observação; interação baseada em laços pessoais estreitos, ainda que em geral transitórios; respeito pelo ritmo e espaço do entrevistado; e interesse efetivo pelo que ele tem a dizer.

Ao contrário da televisão, o documentário não se impõe a quem observa e com quem interage, não pré-determina a pauta.

A simples perspectiva de aparecer na tevê, e o desejo de agradar, transformam pessoas em simulacros de si mesmas. Assim, a anunciada intenção da Record de fazer a próxima edição de A Fazenda com pessoas comuns é uma contradição em termos. Não há pessoas comuns na televisão, só telepessoas.

Pensando no fenômeno dos reality-shows, Comolli escreve que é “na produção de um novo espectador que a tele-lixeira” encontra o ensino do cinema. Fica claro que nesse “encontro”, ao qual ele se refere no início do artigo como sendo uma “convergência”, o que há para ensinar é justamente que “[o documentário] se destaca do fundo dessa espécie de totalitarismo televisual, ao qual tenta desesperadamente resistir, opondo as lógicas e a moral do cinema.”

Não há dúvida de que programas de auditório e novelas se diferenciam de reality-shows, inclusive por serem gêneros que têm tradição própria. Ainda assim, é falaciosa a noção de que possam incoporar tratamento documental, ou ao menos linguagem realista. Como disse o pássaro, em um verso famoso, “a espécie humana não pode suportar muita realidade”. O risco para quem investir nesse sentido na televisão, portanto, é perder audiência e, possivelmente, o próprio emprego.

O paradoxo de ser “na televisão [ao menos na Europa e nos Estados Unidos] que o cinema documentário antitelevisão encontra a fonte principal de seus financiamentos”, não escapou a Comolli. A nova divindade telemidiática – o reino do Visível –, nas palavras dele, rejeita filmes [e programas] que não obedecem às normas do mercado. “E é por isso mesmo”, segue Comolli, “que é legítimo se preocupar com a prática (e com o pensamento) de certo número de cursos sobre o documentário nas universidades francesas [e brasileiras] que não temem formar seus estudantes, aprendizes de documentaristas, na própria formatação que as televisões reivindicam. [Isso] é aceitar se submeter antecipadamente em nome do ‘princípio de realidade’ (é isso! a ‘realidade’).”

Domingo passado (9/9), para conferir, assisti de novo ao Domingão do Faustão. Mas mais uma vez, não encontrei na telerrealidade nada que tivesse relação com documentário.

Um casal de atores de novela participou de uma operação arriscada – atravessar de um balão para outro, por uma passarela estreita, a mil metros de altura; três músicas da trilha da novela do momento foram apresentadas por seus autores e intérpretes; o casal de atores finalistas da “Dança dos famosos 2012” foi entrevistado sobre as etapas anteriores da competição e a expectativa para a final do próximo domingo. Coroando tudo uma longa sequência de “Video cassetadas”.

A chamada “galera” da rua e do auditório fez perguntas aos atores participantes dos diferentes quadros sobre suas participações no próprio programa.

Nesse universo paralelo que se retroalimenta, houve apenas duas rapidíssimas conexões com o mundo externo. A primeira com duração de cerca de 30 segundos – a desconcertante projeção do “Tocador de alaúde”, de Caravaggio, no “telão do Faustão”, sem qualquer menção ao fato da mostra “Caravaggio e seus seguidores” estar no Museu de Arte de São Paulo, até 30 de setembro.

Na outra referência alheia à tevê, um pouco mais longa, uma série de livros e CDs foi apresentada na “Vitrine do Faustão”.

A penúltima palavra é de Comolli: “As escolas de documentário serão escolas do justo perigo ou do necessário risco que há em filmar, não para aqueles que são filmados, mas quem filma: não se filma nem se olha impunemente.[…] O desafio da prática documentária (tal qual, espero, é transmitida pelos filmes e pelas escolas) é, ao contrário [da telerrealidade], o de trazer esse poder de mostrar [da televisão] para as mãos e para o território dos homens concretos. Quem filma? Quem fala?  Como isso circula, as imagens, os sons, os corpos, o poder de fazê-los atuar? De você para mim. Depositar o poder de mostrar na própria relação que funda a possibilidade de filmar.”

Como diz meu amigo Nilton, o artigo do Comolli é longo e abstruso. Mas o esforço necessário para entendê-lo é recompensado por uma profusão de ideias interessantes.